terça-feira, 1 de dezembro de 2009
Joana, a francesa
No nó desatado da gravata, ele resgatou o fôlego da noite mal dormida. E depois de um dia cansativo, do trabalho, de deixar as crianças na escola, de discutir aumento de salário com o patrão, de saber que tinha que refazer o projeto de um mês inteiro e da mulher sirenando ao celular coisas de supermercado, ele sentou-se à mesa e pensava somente que era um inútil, fracassado. Enfim, parece que tudo estava acabando. Brochava com frequência e a mulher virava de lado, meio que aliviada e desconcertada. Não tocavam nesse assunto. Pediu um chopp, dois e três e lembrou-se de que tudo começara depois que entrara naquele cineminha ordinário e fedido.
Entrada de R$3,00 e depois das sete, entrava numa espécie de liquidação e chegava a R$2,00. E as cadeiras estupidamente arranjadas, não defronte a um telão de projeção, mas de uma tevê de tela plana de 29 polegadas. Era ridículo, era nojento pisar em preservativos, e aquelas paredes escuras, manchadas, cheiro de suor, atmosfera úmida e quente. Era imundo, proibido e gostoso e que mesmo só de pensar dava vontade de gozar ali sentado na cadeira do bar, vendo as nuvens se abrirem para que a lua pudesse captar uma nesga do seu pensamento. E, no cinema, surgiu, vindo da escuridão, em sua direção, aquele rapaz de no máximo uns vinte anos, de cabelos meio encaracolados. Conversaram, combinaram o preço e foram para o mais recôndito espaço. Obscura forma de amar em sua mente obtusa. Desvio, como se um olho enxergasse em direção oposta ao do outro. Sussurros, gemidos, curiosos, risos. Depois de tudo terminando só sabia pensar nos versos malditos do Chico, daquela música do filme que mostrava uma atriz francesa rindo que nem doida:
"Vem, moleque me dizer
Onde é que está
ton soleil, ta braise"
E o cravo caíra da lapela para o coração e criara raízes profundas neste. Sua resignação era apenas lembrar do gosto que o rapaz deixara em sua boca: amargo,travoso, leitoso, branco e cheio de ternura até o momento em que fechara seu zíper e fora pago. Dali, foi embora. Passou a catraca da portaria, deixou uma parte do dinheiro com o Mangueira, o porteiro, e sumiu. E a partir dali sua sina era procurar de cinema em cinema, de tela em tela, o rosto daquele rapaz eternamente romantizado, como um dia também romantizara dorothy lamour, no apagar das luzes dos cinemas, nos letreiros luminosos e nas luzes de mercúrio que teimam em permanecer acesas às seis da manhã.
"Quem me enfeitiçou
O mar, marée, bateau
Tu as le parfum
De la cachaça e de suor
Geme de preguiça e de calor
Já é madrugada
Acorda, acorda, acorda, acorda, acorda"
sábado, 28 de novembro de 2009
Editor
Como era fácil sair na chuva só de casaco e pijama. Ele saiu, com a cara nua, depois de tomado umas, uns goles de vinho. E mesmo com a chuva o que lhe vinha era comprar revistas, entrar em bancas de jornais e comer todas as figuras masculinas. Ele que era um solitário dentro de uma casa com mulher e filhos que só faziam grunir e espernear. Ele que era uma criatura que vivia para a igreja, a família e assistia ao futebol com os amigos e com as cervejas. E depois daquele tapa da hilda hilst, depois daqueles tragos, a vida para ele só se resumiu naquilo. E rodopiou, rodopiou com os dentes roxos que ele só sabia mostrar depois de grandes gargalhadas para a chuva. Deixou a mulher na janela gritando que ele era um louco. Mas precisava mesmo das páginas, figuras, uma por uma, com o rosto e corpo de modelos famosos e outros desconhecidos. E, indiscriminadamente, voltava para casa com revistas de esporte, uma baguete em baixo do braço, sacos de presunto e mortadela, quem sabe uma pizza, talvez, e, no saco preto, com suas revistas quase prontas, com homens de todos tipos, de todas a posições. Frente, costas, braços e rostos. Tudo aquilo esperando a sua aprovação. Mancha de tinta branca que se tornava incolor em poucos minutos, frisando as páginas e que aos poucos tudo ia se desfazendo, com os rostos ficando indefinidos e disformes, em meio das páginas grudadas e aquela era a edição final terminada no suspiro aliviado de um novo adolescente, enquanto sua mulher batia a porta dizendo que ele esquecera o refrigerante.
Tara
Para "Recife"
Quando chegar perto de ti,
Para um dia declamar uma poesia,
Sussurrando junto a tua boca,
Para sentir o roçar da tua barba
Com seus fios a acariciar o meu lábio
Deixando em suspense o beijo
E te deixas eriçar teus pelos a cada sílaba
Nuca, queixo de ângulo quadrado,
Esta sílaba que desce
Peito, barriga, púbis.
E as passagens se tornam desconexas
Emoção e sentimento
O beijo que te quero dar e não dou.
Ou mesmo propositalmente
Exercitando minha safadeza
Escondida entre o suspiro
Da pausa entre as estrofes
Para que um dia me peças
Para que se repitam os mesmos versos
Sem sentido e o com o sentido maior
De novamente sentir
Minha poesia a tocar os teus lábios.
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