domingo, 13 de dezembro de 2009

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terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Chico Buarque- Joana, a Francesa

Joana, a francesa

No nó desatado da gravata, ele resgatou o fôlego da noite mal dormida. E depois de um dia cansativo, do trabalho, de deixar as crianças na escola, de discutir aumento de salário com o patrão, de saber que tinha que refazer o projeto de um mês inteiro e da mulher sirenando ao celular coisas de supermercado, ele sentou-se à mesa e pensava somente que era um inútil, fracassado. Enfim, parece que tudo estava acabando. Brochava com frequência e a mulher virava de lado, meio que aliviada e desconcertada. Não tocavam nesse assunto. Pediu um chopp, dois e três e lembrou-se de que tudo começara depois que entrara naquele cineminha ordinário e fedido.
Entrada de R$3,00 e depois das sete, entrava numa espécie de liquidação e chegava a R$2,00. E as cadeiras estupidamente arranjadas, não defronte a um telão de projeção, mas de uma tevê de tela plana de 29 polegadas. Era ridículo, era nojento pisar em preservativos, e aquelas paredes escuras, manchadas, cheiro de suor, atmosfera úmida e quente. Era imundo, proibido e gostoso e que mesmo só de pensar dava vontade de gozar ali sentado na cadeira do bar, vendo as nuvens se abrirem para que a lua pudesse captar uma nesga do seu pensamento. E, no cinema, surgiu, vindo da escuridão, em sua direção, aquele rapaz de no máximo uns vinte anos, de cabelos meio encaracolados. Conversaram, combinaram o preço e foram para o mais recôndito espaço. Obscura forma de amar em sua mente obtusa. Desvio, como se um olho enxergasse em direção oposta ao do outro. Sussurros, gemidos, curiosos, risos. Depois de tudo terminando só sabia pensar nos versos malditos do Chico, daquela música do filme que mostrava uma atriz francesa rindo que nem doida:
"Vem, moleque me dizer
Onde é que está
ton soleil, ta braise"
E o cravo caíra da lapela para o coração e criara raízes profundas neste. Sua resignação era apenas lembrar do gosto que o rapaz deixara em sua boca: amargo,travoso, leitoso, branco e cheio de ternura até o momento em que fechara seu zíper e fora pago. Dali, foi embora. Passou a catraca da portaria, deixou uma parte do dinheiro com o Mangueira, o porteiro, e sumiu. E a partir dali sua sina era procurar de cinema em cinema, de tela em tela, o rosto daquele rapaz eternamente romantizado, como um dia também romantizara dorothy lamour, no apagar das luzes dos cinemas, nos letreiros luminosos e nas luzes de mercúrio que teimam em permanecer acesas às seis da manhã.
"Quem me enfeitiçou
O mar, marée, bateau
Tu as le parfum
De la cachaça e de suor
Geme de preguiça e de calor
Já é madrugada
Acorda, acorda, acorda, acorda, acorda"